O enterro do lobo branco, de Márcia Barbieri

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Márcia Barbieri é uma verdadeira artífice do verbo – quebra regras, desordena a forma de narrar e causa em seu leitor o mesmo efeito das intervenções urbanas capazes de deslocar um cidadão de sua realidade comum e medíocre. Parafraseando Nietzsche: o leitor de Barbieri não é o de pontos e vírgulas. Encarar sua escrita é ter consciência que a ausência de sentido é o corpo de sua obra, entretanto há mais realidade em “O enterro do lobo branco” do que o leitor possa imaginar. A autora sempre trabalhou em seus livros com questões incômodas e que geralmente são evitadas e silenciadas pelo suposto mal-estar que podem suscitar. Barbieri expõe as vísceras, os escarros, os fluxos e o animal que vive entre quatro paredes e que tentamos inutilmente não expor, pelo contrário, tentamos demonizá-lo e a demonização o torna ficção quando deveria ser trazido para o campo das realidades e trabalhado. De quem estou falando? Falo agora da figura do feminicida – uma figura muito real e pouco levada a sério. O romance versa sobre o tempo e as repetições – o peso das ações impensadas, a insanidade humana, o absurdo e o retorno infinito de ações cometidas pela nossa espécie. A obra é dividida em três partes: o assassinato, o velório e o enterro. A narrativa trata de um suposto assassinato de uma mulher; uma mulher de vários nomes, de vários corpos e de vários algozes. A obra aborda muito o corpo, a dominação do corpo, a objetificação e a posse por esse corpo mesmo depois de não sobrar nele nenhum sopro de vida. Tenho a sensação de que Márcia Barbieri evita em suas obras as situações isoladas, os problemas individuais, optando sempre pelo coletivo, algo relacionado com o todo e, em o “O Enterro”, enxergo essa violência com o corpo do outro e a sujeição do próprio corpo como algo que carregamos de geração em geração como uma “memória de espécie” – que ironicamente se transforma em uma amnésia e consequentemente em uma anistia. Ler “O enterro do lobo branco” é tocar um universo real e dolorosamente palpável.

Lisa Alves
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