O mistério do coelho pensante, de Clarice Lispector

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O sumiço de um simples coelhinho branco – quem diria! – inspira uma das mais instigantes histórias infantojuvenis de Clarice Lispector. Em O mistério do coelho pensante, que ganha nova edição pela Rocco, a escritora discorre sobre profundas questões existenciais, na dose certa para a apreciação dos pequenos leitores. Qual a diferença entre “natureza humana” e “natureza de coelho”? Como a gente sai do terreno da necessidade para o da vontade e da criatividade ? É possível um pensamento que seja também um sentimento e uma sensação? Nesta obra, a reflexão se desenvolve de forma leve e divertida. Tudo começa quando o coelho Joãozinho consegue fugir misteriosamente da casinhola deixando a todos – personagens, narradora e leitores – de orelha em pé. Não por acaso, o protagonista tem nome de criança. Joãozinho, na obra, é também símbolo da infância, desta maravilhosa fase de tantas descobertas. De tanto fugir da gaiola quando lhe falta comida, Joãozinho “toma gosto” e decide escapar sempre que possível. Ao ganhar a liberdade e ser feliz, o coelho pensante descobre o amor, adivinha que a Terra é redonda e passa a se interessar por muitas coisas além de cenouras. “Nas suas fugidas também descobriu que há coisas que é bom cheirar mas que não são de se comer. E foi aí que ele descobriu que gostar é quase tão bom como comer”. A partir deste pequeno incidente doméstico, Clarice aguça a curiosidade e a criatividade das crianças ao convocá-las a desvendar os sumiços do animalzinho. No misterioso mundo da narrativa clariceana, crianças e adultos podem encontrar a chave do enigma, abrindo as portas das próprias “gaiolas” rumo à liberdade de imaginação e recriação, inclusive, da obra. Bem ao estilo de Clarice, a resposta fica em aberto, descortinando novos mistérios e histórias. “Você na certa está esperando que eu agora diga qual foi o jeito que ele arranjou para sair de lá. Mas aí é que está o mistério: não sei! E as crianças também não sabiam.” A narrativa rompe estereótipos e coloca a criança em pé de igualdade com os adultos, representados pela narradora-autora nesta história com forte traço (auto)biográfico. Primeiro livro de Clarice endereçado às crianças, O mistério do coelho pensante teve como motivação um “pedido-ordem” de seu filho, Paulo, que andava chateado com o sumiço de um casal de coelhinhos da casinhola. Escrito ao estilo de uma conversa íntima, recebeu prêmio da crítica especializada como a melhor obra infantil de 1967. A narrativa é tecida, portanto, em fina sintonia com os anseios de uma criança leitora – representada por Paulinho – e procura estabelecer com este público forte interlocução. A partir de uma singela metonímia do coelho – um nariz farejante – a autora coloca em cena uma forma de pensamento que é também sensorial, instintivo. Um pensar-sentir que liberta o protagonista Joãozinho das grades da necessidade (por comida), lançando-o no vasto universo da imaginação. “Você não reparou que nariz de coelho parece estar sempre recebendo e mandando telegramas urgentes? É porque ele compreende as coisas com o nariz”, explica a narradora. Trata-se do elogio ao viver como forma de saber. “Só há dois modos de descobrir que a Terra é redonda: ou estudando em livros, ou sendo feliz. Coelho feliz sabe um bocado de coisas.” O livro é perpassado por tiradas sensíveis, irônicas e sempre bem humoradas. Também as metáforas falam ao sensorial, evocado pela autora. “De pura alegria, seu coração bateu tão depressa como se ele tivesse engolido muitas borboletas.” A bela ilustração de Kammal João dá nova vida ao coelho pensante, explorando texturas e formas geométricas como o triângulo, espécie de ícone que delineia o nariz do animalzinho, dos personagens e figura em toda a narrativa. O estilo artesanal dos desenhos sublinha a delicadeza e as múltiplas dimensões desta obra que, mesmo quando fala sobre um corriqueiro acontecimento, faz pensar. A diferença é que este coelhinho não fala, mas pensa – ao contrário de certos animaizinhos que aparecem em fábulas para reafirmar a “moral da história”. “Se você pensa que ele falava, está enganado. Nunca disse uma só palavra na vida. Se pensa que era diferente dos outros coelhos, está enganado. Para dizer a verdade, não passava de um coelho.” No universo clariceano, os bichos e as crianças representam uma força de vida em estado bruto, a latência de um viver ainda não domesticado, formatado. Por este motivo, tais seres intrigam e colorem o traçado de uma escrita que, além de excelente literatura, é pura filosofia.
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